Sanchão
Márcio Sanches de Oliveira
nascido em 1951
+ 22 - 03 - 1994
Márcio Sanchez de Oliveira, um mineiro de peso, uma pessoa simples, dedicado e apaixonada por aquilo que fazia. Para nós amigos, apenas Sanchão, por causa de seus cento e poucos quilos. Uma pessoa surpreedente, com um brilho constante no olhar, um apaixondo por automobilismo. Nós o conhecemos nos idos de 70, o Toninho corria de opala no Mineirão, ele tinha um fusca, todo mechido, muito rebaixado e foi onde ele começou sua carreira de preparador. Segundo ele próprio nos contou, tinha amigos na Faculdade de Engenharia e na Escola Técnica, e estes lhe deram muitas dicas. Era um frequentador assíduo das oficinas de Jorge Balbi, Vitor de Leon e Bolinha, muito atento, muito consciencioso, foi tratando de aprender todos os macetes que os mais experientes lhe passavam. E assim, com o tempo, foi desenvolvendo na prática o seu próprio conceito do que deveria ser a preparação de um motor de corridas.
Desde criança era um apaixonado pelo automobilismo e automóveis em geral, mas a grande paixão, segundo ele, começou em torno de 70, quando passou a ir com freqüência ao Mineirão, assistir as exibições e vitórias de Toninho da Matta. Foi quando nasceu também o sonho acalentado em segredo de um dia trabalhar com aquele piloto, a quem considerava o melhor do mundo.
O primeiro teste real veio em 1975, quando José Junqueira, o "Carioca", o convidou para preparar um Divisão Um para uma prova de longa duração, em Cascavel, no Paraná. Seu carro terminou esta corrida em oitavo lugar. Ainda teve uma outra disputa naquele ano , as 12 Horas de Goiânia, onde ele ficou em sexto lugar. No ano seguinte, Sanchão conseguiu a ajuda do tio, proprietário da Autobet, revenda Volkswagen em Betim, para a equipe de Junqueira e Clemente, dando início , assim, a uma das mais bem sucedidas equipes mineiras de todos os tempos. Sanchão começava a sentir-se bastante gratificado com o seu trabalho dentro do mundo das competições; muito embora seu sonho nunca revelado de um dia vir a ser um piloto estava cada dia mais distante.
A grande mudança, entretanto, viria em 1977, com a entrada de Toninho da Matta na equipe, e a implantação de uma estrutura nova, profissional. Sanchão abandonou definitivamente a fábrica de bebidas de seu pai e passou a dedicar-se inteiramente aos carros de corrida, assumindo uma antiga aspiração: trabalhar ao lado de Toninho. No primeiro ano já vieram várias vitórias e excelentes resultados, mas a consagração definitiva veio em 1978, com a conquista do primeiro de uma série de títulos nacionais conquistadas pelo seu time, justamante o que deu ao preparador a maior alegria não só pelo campeonato, mas porque Toninho venceu sobre Jorge Freitas por apenas um para-lama de frente, numa das mais acirradas disputas que já houve na categoria.
Em 1979, um grande desafio na metade do campeonato: esquecer todos os acertos que já possuíam e trocar de combustivel; passar de gasolina para álcool, por determinação do CNP. Um desafio vencido galantemente porque trazia a esperança de um prosseguimento no automobilismo. Vencido a maior dificuldade que era acertar a carburação ideal, os resultados foram compensadores porque a elevada taxa de compressão que o novo combustivel exigia, permitiu aos carros virarem mais rápido, logo nas voltas inicias.
Em 1980, com três títulos na bagagem, a incerteza sobre o que fazer em 1981. A categoria de Passats tinha sido então extinta pela Volkswagem. Veio então o convite de São Paulo, por parte de Rafael Maya (Espanhol) e Oswaldo Storino (Alemão). Levaram o preparador, os mecânicos Leon e o piloto Toninho da Matta para diputar o Campeonato Brasileiro de Hot Cars. Uma chance tentadora para Sanchão que poderia trabalhar livremente naquilo que então já era sua especialdade: preparação de motores.
Entraram no campeonato com duas provas de atraso, mas conseguiram uma recuperação fantástica, seis vitórias e o campeonato. O ano seguinte não foi o que ele esperava. Muitas quebras com o carro na liderança, problemas financeiros e discussões internas acabaram levando ao desmembramento da equipe. Espanhol, Chichola e Alemão ficaram com um carro em São Paulo, e Leon, Toninho e Sanchão alugaram um segundo carro a Paulo Mafra, passaram a formar a equipe em Petrópolis. Foi um ano para se esquecer. Uma das maiores decepções da equipe, principalmente para Sanchão que tinha uma visão poética das corridas, foi ver pessoas tidas como amigas, se exaltarem com a quebra de um de seus carros, ao passo que ele jamais se sentiria feliz com a quebra de quem quer que fosse. Sempre desejava vencer, mas por seus próprios méritos, não pelo infortúnio alheio.
Mas este ano ficou para trás e no ano seguinte ele e Toninho continuaram juntos. Foram juntos para a equipe de Jayme Fiqueiredo no Rio de Janeiro e venceram o Campeonato de Hot Cars, tendo vencido todas as provas, venceram também o Campeoanto de Marcas e Pilotos com um Fiat, e depois foram juntos para a equipe de Gunnar Volman de Santa Catarina onde foram campeões.
A imagem acima em que Toninho e Roberto Mourão entram na roupa de Sanchão para uma foto histórica, resume o clima de amizade e confiança que um teve pelo outro a vida toda. Sanchão fazia parte da família de Toninho, e era adorado pela amizade que tinha com sua esposa e os três filhos.
Ninguém conseguiu segurar esta dupla, até que Deus dissolveu-a. Toninho dizia que só de olhar para dentro do boxe durante a corrida ele já sabia o que o Sanchão estava querendo dizer. Foram amigos, camaradas e leais, e estes sentimentos que os uniram por tanto tempo e tantas vitórias.
“Homens não foram feitos para serem derrotados, apenas para morrer”. Heminguay
Saudades Sanchão!!!